A Era Dos Ciborgues

A tecnologia parece caminhar em duas direções, para nos libertar ou para nos escravizar. Em uma extremidade nós vemos o investimento contínuo maciço em substituir seres humanos com robôs, tanto em escala econômica como social. Paralelamente a esta tendência, estamos vendo avanços em neurociência, em projetos que procuram decodificar o cérebro humano e adaptá-lo para diversos “tratamentos”.

“O homem que escuta as cores”, “A artista/ciborgue que sente TODOS os terremotos do mundo”, “O homem que ligou seu cérebro a um computador”, “Cineasta usa olho biônico que é uma câmera”… todos esses e vários outros similares são casos reais de pessoas que possuem algum tipo de intervenção cibernética, tanto por razões de saúde e um melhor bem-estar físico quanto por uma simples questão estética. Bom, até aqui tudo ótimo, maravilha… é a ciência avançando e dando uma melhor qualidade de vida as pessoas certo? E sou o primeiro a aplaudir essas iniciativas e aprimoramentos tecnológicos, mas devemos nos vigiar para não cairmos no erro e na falácia de achar que tais conquistas sejam o fator único e principal da nossa evolução como espécie, ignorando com isso os aspectos que realmente nos diferem como indivíduos – fatores esse que vão muito além do raciocínio lógico e matemático.

Somos mais complexos que cálculos e algoritmos, e, enquanto acharmos que novas tecnologias serão a causa e o prenúncio do nosso crescimento, temo pelo nosso destino como espécie, e veremos nosso planeta morrendo e nossa sociedade igualmente fadada a fragmentação e ao egocentrismo.

Saímos em busca de um implante que avise sobre um tremor de terra em um continente distante mas não apaziguamos sequer os abalos do nosso coração. Buscamos uma lente que nos dê visão além do alcance mas não enxergamos o sofrimento de um animal oprimido ou da atual devastação que ocorre em nosso fauna e flora. Enfim, estamos nos tornando, literalmente, seres obsoletos.

Parece história de ficção científica, mas o fato é que hoje já existem até mesmo robôs sexuais, sim, e há um termo para – “robofilia” – para definir aqueles que possuem tal fetiche. Chegamos ao ponto em que literalmente são usadas máquinas como uma alternativa para a mais primordial e básica ação humana, onde agora nem mais será preciso haver um outro indivíduo para a prática sexual. E esses robôs já atingiram um novo nível de realismo. Já se parecerem completamente humanos – em altura, peso, temperatura corporal e nos órgãos sexuais – e logo vão conseguir responder ao toque e interagir durante as relações sexuais. Acreditam que logo mais as pessoas vão suprir suas carências afetivas e sexuais com robôs, e que esses irão preencher um grande vazio na vida das pessoas solitárias que não são amadas, mas a verdade é que cria-se também um escapismo onde não haverá igualmente razão para se vencer esses tabus e se afundar ainda mais no isolacionismo social.

USB HUMANO

A tecnologia cyborg está nos trazendo um progresso tangível em direção à pele eletrônica da vida real, próteses e circuitos ultra-flexíveis. O ritmo desses desenvolvimentos aumentou significativamente, como um transistor “vivo” que usa o DNA fundido com o grafeno, o advento da computação quântica e nanocomputação, a criação de avatares, nanorobôs de DNA e uma gama de aplicações neurais que estão começando a transformar por completo nossa relação fundamental com o mundo “real”.

E existem distúrbios neurológicos, como o de Parkinson, que envolvem o mau funcionamento das células nervosas e podem gerar imensa dificuldades para realizar os movimentos mais corriqueiros e essenciais que a maioria de nós o faz sem sequer pensar, como andar, falar, comer e engolir. São campos onde o uso de nanochips e da nanociência estão dando um grande salto em direção a cura.

Ficamos muitas vezes boquiabertos com o quanto a ciência avança e como pode ser usada para nos proporcionar a uma melhor qualidade de vida. Não há como fugir a essa nova realidade, o fato é que apesar de todos esses avanços, no campo da ciência ou mesmo comportamental, devemos nos ater que não será um chip implantado no cotovelo, uma mão biônica, um olho robótico, etc, que nos tornará melhores como humanos ou principalmente como seres planetários… Acreditamos e partimos de um princípio mais amplo onde de nada adiantará continuarmos focados apenas na problemática de que o planete é constituído e feito exclusivamente para nós humanos e excluirmos com isso todo o restante dos seres sencientes que habitam e já estavam aqui mesmo muito antes da nossa espécie pisar no planeta. E de nada nos adiantará todas as conquistas e avanços tecnológicos se para isso continuarmos causando a morte e extinção de toda a vida existente. A que pontos estamos disposto a ir e que preço estamos dispostos pagar para que tais experimentos e conquistas cheguem até nós?

Somos sim a favor dos avanços e de uma tecnologia plena, seja para fins medicinais, terapêuticos ou mesmo como um mero entretenimento digital mas é importante frisar que o fator essencial para uma evolução real se baseia em primeiramente nos identificarmos como parte de uma complexa rede que abrange todas as formas de vida existente e agir com respeito aos direitos das outras espécies. Devemos nos lembrar que mesmo muito antes da atual conexão digital existia e ainda existirá uma interconexão planetária e dela dependerá nosso destino como espécie e sobre que tipo de planeta desejamos ter para, eventualmente, usufruir de tais avanços. E de nada nos adiantará ter chips e implantes cibernéticos por todo nosso corpo, vivermos com conjugues robóticos ou habitarmos em uma era de alta tecnologia se não houver mais vida, animais ou natureza ao nosso redor. Mas há esperanças e uma imensa luz no fim do túnel – que por sinal é de fonte renovável – visto que gigantes como a GOOGLE já utilizam sistematicamente fontes de energia limpa e renovável, e outras como MICROSOFT já afirma – por meio do próprio BILL GATES, que o futuro da humanidade é inevitavelmente ser VEGANO, talvez por que veja que chegará um ponto em que não teremos outra opção.

Quando respeitarmos o planeta em que vivemos e pararmos com esse triste hábito de levar morte e destruição em troca de tais tecnologias, talvez sim, eu acredite que estamos realmente evoluindo e que as atuais conquistas cibernéticas não sejam unicamente para tentar preencher o vazio que se implantou em nossa alma. Só acho.